Tenho me sentido mais irritada que o normal. Irritadiça. Pré-disposta. Implicância e nervosismo em níveis absurdos. Claro, como sou toda desregulada por dentro e por fora, não descarto a possibilidade dessa irritação ter a ver com questões estritamente femininas como aquela coisinha chata que acontece a cada 30 dias. Acho que é 30. Não marco, não conto, não sei. Quando vem, vem. Incomoda. Passa esse pré-ódio de tudo. Mas dessa vez, eu me libertei dessa possibilidade. E vai tudo assim mesmo, sem parágrafo, sem nexo, nem cabeça. Acho que ando irritada comigo mesma. E isso não vai passar como no ciclo ginecológico. A minha vida inteira eu sempre me persegui, disse, talvez, Monroe. Desde criança tenho o péssimo hábito de estabelecer metas e estabelecer datas. Com XX anos vou fazer isso, e aquilo. E aos XX anos vou fazer aquilo e não sei o que mais. Mas a vida não é planejada como eu gostaria. E nesses 21 anos, eu fui me decepcionando com minhas metas não cumpridas. A última decepção foi quando - entre dias muito exaustivos, eu cheguei à conclusão de que não queria mais algo que eu tinha c e r t e z a que queria pra s e m p r e. Caralho, eu amo o que eu faço. Mas nesses dias foi tão difícil, mas tão difícil lembrar dessa paixão, desse tesão. Eu só queria parar e sair gritando. Pra mim deu, não quero mais. Vou mudar de vida. Adeus pra vocês. Não fiz nada disso e não vou fazer, porque sei que minhas crises mais agudas são passageiras. Crise. Vai e vem. Vai. Foi. Acalmei e quis, quis e quero, que toda a paixão pelo editorial volte, firma e presente como era há 2 semanas atrás. Sim, duas semanas parece pouco tempo pra mudar de opinião pra sempre. Mas eu acredito que eu funciono assim: vou indo indo, até que chega um dia que não dá mais. Daí eu paro, sofro, choro, e com muito esforço repenso. Eu queria trabalhar com revista o resto da minha vida. Até os 80 anos. Poucas coisas me dão mais prazer que ver o troço impresso, em mãos, na minha estante. Eu só não posso ja, estabelecer essa regra - vou trabalhar pra sempre com isso. E essa transição, essa aceitação entre quero e não sei se quero mais, é muito difícil pra mim. Decidi, por hora, que quero ser um pouco de cada, fazer um pouco de cada, ser um pouco de tudo. Tudo dentro desse meu universo. Não quero virar burocráta, parada, estagnada pra sempre na mesma coisa. Engraçado. Sempre tive horror a estagnação e não percebia que estava propondo pra minha vida, a estagnação profissional - numa área específica. Não posso esquecer dos meus 17 anos, em que tudo era atraente e possível. Tudo era permitido. Até química já desejei. Essa ansiedade em ser mais, ser sempre, ser tudo, me cansa de uma forma extraordinária. Mas ao mesmo tempo me renova, não me deixa esquecer que eu sou assim, mutante, diferente, plural.
Ando insatisfeita com minhas atitudes. Me esforço pra mudar. Sem sucesso. Acabo de desenvolver uma nova teoria que me ajuda pensar na minha vida com mais tranquilidade, por hora. Por hora, porque tudo volta. Tudo vai. Até quando não sei. Pode ser que um dia eu saiba o que eu sou, mas por enquanto essa maré de personalidades se misturam, e tenho a impressão que nunca vou saber de fato quem é camila. Sou mais Zelig do que gostaria. E nesse conflito mental shakesperiano, noto que me afastei de tudo que é avesso a mim. Não só me afastei, mas peguei asco, rancor. Eu não consigo ficar imune às diferenças. Tudo que não faz parte de mim, eu detesto, eu odeio, eu desprezo. Não consigo ter aquela racionalidade crua de separar. Respeito. Mas por dentro, só Deus sabe como me sinto. Tenho vontade de chacoalhar. Morder e matar. Sai desse casulo, sai dessa vida limitada. Sai dessa cortina de pureza e ingenuidade, a vida é isso, vai ver o que tem lá fora. Não fique boazinha, bonitinha, quietinha que nunca vi isso dar futuro pra ninguém. Mas eu páro, e como não posso fazer ou falar nada disso, começo um monólogo de semi-ofensas que deixam claro minha implicância, e me caracteriza como neurótica sem cura. Sem cura mesmo. Não quero ser curada. Quero esse furor, esse desejo de mudar, de acordar, de estapear pessoas que julgo sonsas. Que pra mim, é a pior maneira de viver a vida.
Longe e desprezando tudo que é avesso, tudo que não concordo e não condiz com minha concepção de vida, eu vou ficando assim. Sem graça, chata, ranzinza, histérica, irritada. Pra eles. Da camila pra camila, isso tudo me aproxima e me faz ver com clareza o que eu sou (nesse momento). E descubro isso por exclusão. Se eles são assim e me irritam, eu sou tudo tudo tudo tudo diferente disso. Até quando eu vou me definir por exclusão, não sei. Acho que por pouco tempo. Visto que profissionalmente não me defino pela exclusão, mas pela soma de tudo o que me interessa produzir. Personalidade e profissão não ficam com concepções diferentes por muito tempo, e nem podem. Mas deixa pra lá, que eu preciso dormir e me organizar melhor. Minhas pernas amorteceram.
Esse texto não foi revisado, tampouco lido duas vezes. Se o fizer, vou mudar cada linha. E racionalidade, sequência temporal e lógica não faz parte deste discurso. Não hoje.







